terça-feira, 13 de outubro de 2009

Prova de Vida - Tanzânia, 1960's

Em 1991, e a pretexto de elaborar um trabalho para a cadeira de História da minha licenciatura, desloquei-me ao Bairro Alto (BA), em Lisboa, na busca de bibliografia acerca da participação portuguesa na 1ªGuerra Mundial. O meu alvo eram os vários alfarrabistas que por lá proliferavam, naqueles anos, na esperança de num ou noutro conseguir encontrar a bibliografia que estava indisponível nas livrarias normais e não existia em publicação há dezenas de anos. Só em anos mais recentes, (re)começaram a ser publicadas obras em língua portuguesa acerca desse conflito e do papel de Portugal no mesmo, no plano militar e analisando as consequências e impacto do mesmo na sociedade portuguesa.Voltando ao inicio dos anos 90, a única alternativa, para o caso de pretender adquirir alguma livro acerca do tema, era mesmo recorrer aos alfarrabistas e rezar para que, no fundo dos catálogos, lá aparecessem os livros pretendidos. Felizmente, consegui obtê-los. O estabelecimento onde isso aconteceu foi a Livraria Histórica e Ultramarina, situada na Travessa da Queimada. Mais especificamente, numa dependência desta livraria, situada nas proximidades, na Rua do Diário de Notícias.Ali, num primeiro andar, eu e um amigo meu, fomos atendidos por um sujeito com forte sotaque. Era alemão, de nome (soube 18 anos mais tarde), Fritz Berkemeier. O homem era, digamos, bizarro. Pelo menos, o seu comportamento, a forma como se expressava e o à-vontade levou-me a pensar isso, na altura. Confesso que o comportamente dele me assustou um bocado mas hoje, e passados todos estes anos, penso que não tinha motivo para recear algum gesto atentatório à minha pessoa. O Sr. Fritz não passava de um homem excêntrico, comunicativo e afável, quando dava-nos a sua confiança, e com um gosto profundo pelo que fazia. Não sei se ainda será vivo e/ou se ainda residirá em Portugal. A livraria, soube-o recentemente, já não mora no BA, tendo assentado arraiais, com nova gerência, na Rua de São Bento.Na verdade, tive que me deslocar 2 vezes ao referido 1ºandar da Rua do Diário de Notícias.Na primeira ocasião, ia sozinho. O sr. Fritz, sem cerimónias, mandou-me dar uma volta, que já era tarde e que voltasse noutro dia. Fiquei atordoado com esta recepção e mal impressionado com o homem. Isso deve ter sido o que me fez recear acerca do comportamento dele, na minha 2ªdeslocação, já acompanhado pelo meu amigo e então colega de curso.Foi como passar da noite para o dia. O alemão excêntrico recebeu-nos muito bem, com cordialidade, até parecia que nada se tinha passado de anormal, anteriormente.E, depois de apresentar-lhe a lista de livros que pretendia, o homem começou a contar episódios associados ao tema. Nomeadamente, falou-me da edição portuguesa das memórias do general alemão Von Lettow-Vorbeck, referindo ter um exemplar, que estava a ler, mas que não vendia nem por 8 contos (cerca de 40 euros, na moeda actual)! Ora nessa altura era muito dinheiro. Mesmo para mim, que até estaria disposto a adquiri-lo mas desisti logo da ideia. A despesa com os outros livros também não me dava espaço de manobra e aqueles eram mais necessários que as ditas memórias (um aparte: acabei por adquirir, anos mais tarde, uma edição destas memórias, em inglês, publicada por uma editora dos EUA, por um preço mais em conta e novinha em folha).O Sr. Fritz era, de facto, bizarro em termos de comportamento. Foi buscar, um a um, os livros que pretendia, atirando-os para cima de uma mesa, com um certo espalhafato e sonoridade, dizendo o nome de cada um. Parecia que estava a jogar uma partida de sueca e a destrunfar. Mas sempre a sorrir, afável. Curioso, o comportamento humano. Os livros exibiam os sinais do tempo que já passara por eles. Mas o cheiro que emanavam era maravilhoso. Adoro o cheiro de livros antigos. As páginas amareladas, a textura do papel, enfim, o conteúdo, tudo isso, junto, fascina-me num livro antigo. Um deles tinha um brinde adicional: era uma edição de 1925, com as páginas ainda coladas. Ou seja, nunca tinha sido lido e passados mais de 60 anos, eu seria a primeira pessoa a folheá-lo e a lê-lo. Um delírio.Depois da apresentação pomposa dos livros, o Sr Fritz começou a contar os referidos episódios. Infelizmente, só me lembro de um deles, por sinal, concerteza hilariante, para os padrões de humor do Sr Fritz. Tanto que quando eu e o meu amigo nos fomos embora, ele ainda estava a rir-se, ao acompanhar-nos à porta de saída, batendo com uma das mãos no joelho. Devo salientar que, previamente à narração, o Sr. Fritz ausentou-se, momentaneamente, da sala, com o pretexto de ir buscar um objecto que serviria como adereço e o ajudaria a expor melhor os factos que ele iria partilhar connosco. Qual foi o nosso espanto, quando ele regressou com uma vassoura nas mãos. Já estavamos a pensar que isto ia acabar mal. Talvez à vassourada! Mas aguentámos estoicamente. Como se diz, a curiosidade pode matar o gato. Ou talvez não.O episódio em si, que passo a narrar (com a ajuda preciosa da vassoura do Sr. Fritz, como se verá mais à frente), era mais ou menos assim:No inicio dos anos 60, a então República Federal Alemã (RFA), abriu uma embaixada em Dar-es-Salam, a capital da recentemente independente Tanzânia, ex-colónia inglesa que, por sua vez, tinha sido colónia alemã, até ao final da 1ºGuerra Mundial, com a designação de Tanganica ou Africa Oriental Alemã.Passado pouco tempo da abertura da representação diplomática da RFA, o embaixador alemão foi supreendido com uma chuva de pedidos de pensão por parte de um conjunto considerável de cidadãos idosos da Tanzânia. O motivo destes pedidos: tinham servido no exército colonial alemão, enquanto recrutas (askaris), e, por esse motivo, achavam-se no direito de receber uma pensão do governo alemão pelos serviços prestados, nomeadamente durante a dura campanha ocorrida durante a Grande Guerra, a qual se prolongou para lá do final do conflito na Europa.Possivelmente, a visita que Von Lettow-Vorbeck, comandante militar alemão da ex-colónia, durante a Grande Guerra, havia efectuado, poucos anos antes, à Tanzânia, e a abertura da embaixada da RFA, terá despertado a memória e a ganância dos autóctenes, decorridos mais de 40 anos sobre o final do conflito.O embaixador acreditava que, pelo menos, parte dos reclamantes teria, de facto, servido no exército da então colónia alemã e, como tal, talvez tivessem direito a obter uma compensação do país que, naquela altura (anos 60), representava a defunta Alemanha Imperial. Mas também desconfiava que havia alguns trapaceiros à mistura, tentando aproveitar-se da situação. O embaixador comunicou esta situação ao governo da RFA. O assunto foi debatido e o governo mostrou-se disponível para atribuir a pensão aos antigos askaris. Mas, para tal, tinham que apresentar provas do que diziam, o que não era fácil. A embaixada teria que fazer essa triagem e apresentar uma lista com os pensionistas a serem considerados para atribuição da pensão.Tirando, na maior parte dos casos, pedaços dos uniformes usados durante a campanha da Africa Oriental Alemã e outros souvenirs do conflito, tudo perfeitamente falsificável, restava apenas a palavra dos reclamantes, o que também não era suficiente para comprovar, fidedignamente, que diziam a verdade. Havia, inclusivé, alguns ditos ex-combatentes que pareciam não ter idade sequer para terem servido no exército colonial inglês, posteriormente à Grande Guerra, mas isso também afigurava-se difícil de provar.O embaixador ficou, portanto, com a batata quente nas mãos. O que podia ele fazer? A solução foi encontrada pelo adido militar da embaixada.Quase nenhum dos candidatos a pensionista sabia falar alemão, tirando uma ou outra palavra, nalguns casos raros. No entanto, sabia-se que isso não tinha sido condição indispensável para servirem no exército alemão. Como a instrução e as ordens de comando, dadas pelos oficiais alemães que os enquadravam, eram dadas em alemão, caso fossem mesmo antigos askaris, os reclamantes tinham que as reconhecer, pese a idade e a memória. A instrução era algo brutal e os oficiais alemães eram muito rígidos e disciplinadores. Portanto, não era coisa que se esquecessem facilmente, mesmo passados tantos anos. Um pouco como andar de bicicleta, pese a comparação. Aqui estava encontrado o método de selecção. O que foi feito então para o colocar em prática? Aqui entra a vassoura do Sr. Fritz.Um a um, os candidatos a pensionista foram chamados à embaixada. Uma vez aí, eram encaminhados para uma sala, quase vazia, onde apenas se encontrava o entrevistador, sentado a uma secretária, uma cadeira disponível e, surpresa, uma vassoura.O entrevistador (não me recordo se teria sido o próprio adido militar ou um outro diplomata), convidava o candidato sentar-se e, depois de uma breve conversa, pedia-lhe para ele pegar na vassoura e ficar de pé. Depois, e repentinamente, berrava-lhe ordens de comando em alemão às quais ele devia obedecer e executar os movimentos associados, tal e qual tinha feito quando servira, como afirmava, no exército colonial.Foi remédio santo. De facto, os verdadeiros (antigos) askaris compreendiam e executavam, o melhor que podiam, as instruções dadas pelo entrevistador, pese a idade. Os outros, os trapaceiros, ficavam a olhar para ele, sem compreender porque ele estava a gritar com eles. No caso dos primeiros, a entrevista terminava com a garantia que iriam receber a desejada pensão. Quanto aos outros, acho que a entrevista terminava com um pontapé no traseiro! Não garanto, no entanto, que tenha sido isto que o sr. Fritz disse. Mas devia ser algo parecido, dado que o homem quase rebolava a rir, ao concluir a narração deste pedaço de história, ao mesmo tempo que manuseava a vassoura, que tinha nas mãos, como que a reproduzir os gestos atabalhoados dos entrevistados. Quando eu e o meu amigo nos fomos embora, o Sr. Fritz ainda se estava a rir. Pelo menos, esteve até fechar a porta nas nossas costas, dando o negócio por concluído.Nunca mais voltei aquela livraria. Devo acrescentar, a esta distância no tempo, com grande pena minha. As histórias que deixei de conhecer, da boca de um alemão excêntrico, no coração do Bairro Alto. Este episódio perdurou na minha memória e guardo-o, para sempre, como um dos momentos mais engraçados que vivi na minha vida. Esta, é sem dúvida, a magia dos livros. Será que o Sr. Fritz ainda continua naquele 1ªandar, de vassoura na mão, a invectivar ordens em alemão, a askaris imaginários? Quem sabe…

Nota: agradeço ao meu amigo Octávio pela preciosa ajuda, na reconstituição dos factos. Também ao Ricardo, por se lembrar do ano exacto dos acontecimentos :)

3 comentários:

Anônimo disse...

O Sr. Fritz ainda está bem vivo e sempre com novas histórias para contar.
Ainda bem que contribuiu para um dos episódios mais engraçados da sua vida!
Catarina Berkemeier

RMarques disse...

Obrigado pela informação. O sr Fritz ainda está ligado à Livraria onde o conheci ou reformou-se?

Anônimo disse...

Neste momento já se reformou mas tem uma "pequena livraria" em casa e ainda se encontra em Portugal.
cumprimentos